(...)
Mas sabe, esse lance da decepção tem um peso. Você, ao se decepcionar comigo, me fez sentir uma coisa estranha: sabe aquela coisa da desaprovação? Aquela coisa que senti a minha vida inteira, desde criança. Aquela inadequação. E aí vem de novo a coisa da inteligência. No meu caso funciona assim: "o que me alimenta, me destrói". A inteligência é o que tenho de "melhor", é o que mais me evidencia, segundo os outros. É o meu céu e o meu inferno. É como se eu tivesse que cumprir um papel, o papel da menina inteligente e diferente e descolada e íntegra e acima do bem e do mal, que não bate em animais, nem em crianças, que não tira notas baixas e também não trai, não é desleal e nem corrupta, não grita, não ataca, não se descontrola. Essa menina inteligente é, antes de mais nada, humana. E sendo humana, é passível de erros. As vezes eu decepciono os outros, as vezes eu me irrito, as vezes eu sou ignorante, as vezes eu grito e sapateio por tolices. A menina tão inteligente não se sente capaz de acreditar em deus e não consegue justificar por quê já deu palmadas no cachorro. Faltaram argumentos para o injustificável.
E aí que a vida é assim, não é? A gente se frustra por não conseguir ser aquilo que os outros querem e esperam que sejamos e também nos frustramos com os outros por não serem exatamente aquilo que queremos e esperamos.
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