É, hoje o dia está chuvoso. Era essa frase que escrevia no caderninho de caligrafia quando era criança. Não fazia muita diferença a forma como os dias se apresentavam, criança não tem noção de tempo. O importante era poder brincar. A chuva era um empecilho somente porque minha mãe não deixava a gente “descer”. Sempre morei em apartamento e, para brincar, tínhamos que “descer”. Quando chovia, a gente brincava de “escritório”, dentro de casa mesmo, sem saber exatamente o que aquilo significava. Quando eu era criança queria me sentir importante, queria ajudar, queria entender. Crianças tem muita vontade de aprender, tem fome de vida.
E hoje o dia está chuvoso. Eu não preciso mais de autorização para sair. Eu posso sair por aí e “brincar” como uma adulta nostálgica. Na verdade é bem isso mesmo: a gente cresce, mas a criança interna está sempre lá, latente, esperando o momento certo para aparecer.
Os adultos nostálgicos se divertem com simuladores do ATARI, com festas e músicas dos anos 80, com fotos de brinquedos que brincavam há mais de duas décadas. Não tínhamos computadores domésticos, telefone era luxo, não tinha essa de ficar batendo papo por horas. Quando eu era criança, telefonava pra minha vó de um orelhão vermelho cujo funcionamento se dava através de fichas.
E o dia está chuvoso e cinza. A nostalgia me invade devagar, trazendo retalhos da minha infância, um tempo que não volta mais. Deve ser aquela “menina mimada” querendo aflorar, querendo se expressar, numa luta eterna com a “menina adulta” que me tornei.
A “menina mimada” não sapateia por querer um doce. A menina mimada bate o pé no chão porque se sente rejeitada, não que isso seja uma grande novidade, o que importa é “quem” a rejeita. A menina mimada não se conforma com o NÃO – ENE-A-Ó-TIL, NÃO. E se pergunta: “por quê não”? A rejeição é como um tiro de “sniper”, sempre certeiro. Desestrutura nossa frágil psiquê, que insiste em brincar conosco nos momentos mais impróprios.
A menina adulta não aprendeu a amar, não aprendeu que pessoas são só pessoas e que podem ser cruéis e amáveis de um minuto a outro, assim como os bipolares. Não aprendeu que quase tudo na vida é um jogo e que quem não sabe jogar fica no bolo do “morto”, assim “AD ETERNUM”, esperando por uma única cartada que seja.
Já não consigo mais sentir aquela sensação que os dias chuvosos e cinzas me traziam. Sentia um troço percorrer meu corpo toda vez que pegava o metrô pra encontrar com aquela menina, que aqui chamo de nº1. Eu era uma pessoa difícil, eu sei.
Tento me lembrar do sabor do “cafezinho” que tomávamos quase todas as tardes, com pão recheado sabor chocolate. Tento me lembrar do que sentia ao vê-la longe, me esperando. Tento me lembrar da sua energia e alegria, das suas roupas coloridas, da sua disposição e força de vontade. Tento me lembrar das vezes em que ficamos deitadas num colchão olhando as estrelas do teto do seu quarto, em plena tarde, no meio da semana. Lembro dos seus gatos, que adoravam ficar na minha cabeça quase me matando de alergia.
Ainda lembro das nossas “jam sessions”, guitarra e bateria, num volume ensurdecedor. Lembro que tocava violão pra vc dormir, tocava baixinho, sentada ao teu lado, velando teu sono. E ficava ali te olhando e me sentindo a menina mais feliz por ter alguém como vc. Era um amor poético, eu sei. E intenso. E erótico. E louco. E devastador. E como parecia ser de vidro, se quebrou. Depois daquele dia recolhi os cacos, feito um mendigo que fuça no lixo.
E depois de tanto tempo, percebo que a “menina mimada” insiste em me pregar peças. Insiste em me mostrar tola. Me desmascara, me expõe, mostra tudo aquilo que sempre lutei pra esconder.
Sempre pensei ser senhora de mim. Sempre achei que pudesse controlar tudo ao meu redor, inclusive as pessoas. Eis que a vida me afoga na minha própria tolice, numa poça rasa, daquelas que não matam, apenas assustam.
E a menina mimada insiste em se fazer cega. Reluta e se debate, como um peixe fora d’água, lutando por aquilo que o sustenta. Ah, se ele tivesse pernas!
