segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma tarde em Santos

Hoje não estou muito inspirada. O fim de semana foi um pouco agitado, fui até Santos rever a Doroti. Santos! Ir pra lá sempre me traz lembranças. A rodoviária, o morro do Valongo, o IML, o túnel que antecede a Santa Casa, tudo me faz lembrar dele. Não é o tipo de lembrança que gosto de ter. São aquelas que ficam guardadas numa caixa empoeirada, no fundo da memória. Aquelas que a gente até prefere esquecer, mas não esquece. Passar por estes lugares me fez sentir de novo aquela sensação ruim de desamparo, um tróço estranho que corre pelo corpo, um calafrio.
 
E aí que a Doroti está morando perto de onde morava a tia Dora. Aquele lugar é um tanto familiar. Andar novamente entre os canais de Santos refrescou na minha mente imagens que estavam esquecidas. É minha memória me pregando peças.
 
Rever a Doroti me fez lembrar de muitas outras coisas, me fez lembrar de mim há dez anos atrás. Já não me reconheço mais, não como aquela menina tola e medrosa que eu era. Falar com ela depois de dez anos me fez sentir estranhamente "adulta". E aquele mito, aquela minha mania de endeusar as pessoas me pegou de calças curtas. É estranho quando as circunstâncias te obrigam a desconstruir imagens que criamos, pessoas que idealizamos. É estranho. É como uma criança que descobre que o papai noel é o seu próprio pai.
 
Dez anos depois e eu me sinto cheia de teorias e argumentos, capaz de refutar qualquer opinião, sem saber que nada sei, protegida atrás da muralha que eu mesma construí e me coloquei. Essa muralha agora passa a ser o meu maior problema, o meu maior inimigo, o meu maior obstáculo. Em dez anos fiz um muro alto, orgulhosa por ter posto tijolo a tijolo, sem perceber que o muro ficou fino e que se ventar muito ele balança.
 
Percebo que não tenho um problema, tenho vários problemas, eu sou um problema. Um teorema talvez. Nunca fui boa em matemática, então os teoremas pra mim são indecifráveis. Tão indecifráveis quanto os mistérios da vida, aqueles que são baseados mais em suposições do que em fatos. Então eu suponho quais são os meus problemas e me proponho a resolvê-los, assim como um macaco em cativeiro que, para pescar a banana dentro de uma caixa, precisa aprender a usar algumas ferramentas que estão no seu habitat.
 
Se o macaco não consegue pegar a banana usando as ferramentas, então ele parte pra força: bate na caixa, se machuca e se frustra, como se tivesse consciência da sua própria impotência, da sua insignificância. E então age como um "macaco mimado", gritando e sapateando, decepcionando aqueles que o observam, aqueles que esperavam mais dele.
 
Assim sou eu, "um macaco mimado", irracional aos olhos daqueles que não podem compreender a simplicidade de ser apenas um macaco. Acho que esgotei minha fonte de teorias.
 
A tarde de domingo foi como há muito não era: agradável. Fomos até o morro de Itararé, de onde saltam de "para-glider". A vista é de encher os olhos: a baía de Santos de um lado e a selva de pedra do outro. Ao longe, navios e pequenas embarcações que, de lá de cima, parecem patinhos de borracha numa banheira.
 
E nos sentamos num restaurantezinho na beira do morro, com pompa "pra inglês ver". Nada demais se não fossem os preços. Uma porção de qualquer bicho do mar não sai por menos que quarenta reais.
 
Pedimos uma cerveja "litrão", como é dito por lá. E depois outra e mais outra. A fala vai ficando mole, se liquefaz junto com os pensamentos. E de repente você tá falando sobre o que nem queria falar, o álcool acaba sendo uma espécie de "condutor" de pensamentos: transforma em palavras aquilo que a gente pensa.
 
Saímos de lá já no fim da tarde, com o corpo cansado e anestesiado pelos "litrões". Voltar pra casa de moto depois dessa maratona psicológica é para os fortes. RESULTADO: desidratação, calor, cansaço e dores pelo corpo. Mas foi bom, foi bom poder conversar mais uma vez, agora com os ânimos mais calmos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Foi um domingo ótimo como a muito tempo não era...